Se você enxerga futebol só por posições e esquemas tradicionais, se pensa que cansaço de jogador é apenas uma questão de fôlego, se não consegue perceber as evoluções físicas, táticas e tecnológicas do futebol, se você não reconhece os reflexos da ciência no jogo, se não entende os processos de desenvolvimento… Está tudo bem, desde que você seja apenas um torcedor, um mero consumidor do produto futebol, sem compromisso algum com o que diz.
Porém, se você faz comentários nas redes sociais, por exemplo, você já está fadado a cometer injustiça nas análises.
O futebol do Pará tem hoje um técnico respeitado em todas as regiões do mundo, por ideias de jogo fora do padrão, mas em um mês de trabalho, depois do 4º jogo (Re-Pa), Juan Carlos Osorio já era alvo de ataques ferozes, mais por desconhecimento dos críticos do que por suas decisões.
Afinal, é sempre mais fácil destruir o diferente do que analisar e tentar compreender!
Atacado por ter sido responsável
A substituição de jogadores que atingiram o limite físico, sob risco de lesão, conforme o monitoramento eletrônico, é uma questão de responsabilidade do técnico. A queda de rendimento é normalíssima no começo de temporada de um time em construção, mas Osorio foi impiedosamente atacado por ter feito o certo no jogo contra o Mirassol (SP), virou “burro” no Re-Pa e provou o contrário diante do Atlético (MG).
O Remo subiu à Série A e foi buscar um técnico com Copa do Mundo no currículo. Como pode ser “burro” em Belém com o currículo que tem? Quem analisa também precisa subir à Série A, entendendo e explicando o futebol em nível mais elevado, com isenção e respeito.
Intensidade
Não há competitividade de futebol sem intensidade física, organização tática e inteligência emocional. Ninguém consegue elevar e associar essas valências do dia para a noite. Esse processo é uma construção gradativa que exige tempo. Que o diga Osorio…
Imediatismo
Alguns técnicos atropelam etapas para dar resposta imediata, mas o sucesso é efêmero porque o trabalho não tem consistência. Osorio está fazendo trabalho para a temporada, dentro das condições que lhes são oferecidas.
Músculos
O futebol de alta rotação, principalmente na Série A, exige grande resistência na musculatura. É a isso que os profissionais se referem quando falam em “ritmo de jogo” – a capacidade de resistir ao ritmo intenso.
Essa está sendo uma grande dificuldade do Remo pelo começo de temporada tumultuado, com excesso de jogadores e jogos em competições simultâneas.
No entanto, só se fala em “decisões erradas” de Osorio e de jogadores ruins, sem considerar a etapa do processo e o potencial de desenvolvimento. Análises muito rasas, voltadas para urgência e emergência, não contribuem na construção.
Coluna de Carlos Ferreira, O Liberal, 15/02/2026


